Argumentos apaixonados

ADORO! programas de investigação criminal, principalmente se os casos são verídicos. Devo ter herdado este gosto de meu pai, pois ainda éramos bem jovens quando ele deu de colecionar uma tal de “Enciclopédia do Crime” em fascículos. Cada um tratava de um figurão nessa modalidade de atividade humana, e me lembro vividamente do que foi dedicado a um francês chamado Landru, talvez porque a cara do sujeito era a que eu imaginava corresponder a de um assassino.
Sou, no entanto, muito mais fascinada por crime do que meu pai; há poucos anos, ele se recusou a acreditar que uma mulher nos Estados Unidos havia matado outra e lhe retirado o bebê de oito meses da barriga. Resmungou que era conversa, novela, mentira e outros substantivos rebaixadores, bateu o pé e não teve jeito de convencê-lo de que um ser humano fosse capaz de tamanha vileza.
Fiquei me perguntando se nos tempos de antanho não havia maldades tão requintadas ou histórias escabrosas como a do Canibal Alemão, que precisei ler e reler algumas vezes até me conformar que realmente acontecera. Porque escarniçar, traficar, escravizar, prostituir, torturar, esquartejar, estripar e explorar as gentes sempre fez parte dos costumes da humanidade, não surpreendendo a ninguém com alguma pouca experiência de vida.
Aí a gente pensa numa criatura que se elege vereador, deputado, prefeito ou ocupa cargo público qualquer cultivando o propósito maior de promover benefícios para si mesmo. Nessa posição, acumula vantagens e riquezas inatingíveis para a grande maioria dos outros cidadãos, inclusive aqueles que os colocaram lá por meio de seus votos prenhes de ideologia, racionalidade, esperança, idealismo, ingenuidade ou, quer saber? por algumas dúzias de blocos para ajudar na construção do cafofo ou uma cédula de 50 reais. Qual a intensidade do crime que essa criatura comete?
Com alguma frequência sou criticada quando ouso uns pitacos acerca do fazer político que vivemos no Brasil. Os mais simpáticos me chamam de maluca-beleza, já que não sei citar pensadores e a minha consciência (por alguns denominada de “paixão“) é o que me guia. E como já sou por demais calejada para ter medo de gente sabida, defeco majestosamente sobre as opiniões que em mim não calam e sigo com meus passos de pernas levemente em X, segundo a observação de uma instrutora de Pilates.
Pois bem: querem fazer uma reforma em nosso sistema previdenciário, se não o País estará de cuia na porta das igrejas daqui a cinco anos. Primeiro: “Porque a população está envelhecendo“. Mas não é sabido que nascem muito mais pessoas do que morrem? Assim, não haverá sempre mais gente para contribuir, sem falar dos milhões de aposentados que continuam ativos, como eu, e são descontados a fundo perdido? Segundo: se os bilhões recolhidos mensalmente ao INSS não fossem também desviados para outros fins que não aposentadorias e pensões, estaria o Instituto em tal penúria? Terceiro: se as dívidas magníficas de bancos e outras Entidades estivessem liquidadas, como estariam essas contas? Quarto: E no que se refere às benesses e aposentadorias de políticos e congêneres? Ainda sobraria ao restante do povo, especialmente o que atravessa a vida mancando, arcar com esse fardo?
Quinto: que tal Vossas Excelências servirem de exemplo, dando cabo de seus aviltantes privilégios? Teríamos, então, um mínimo de credibilidade, tornando-se mais fácil crer de que se trata realmente de uma tentativa de saneamento do que mais uma vigorosa chicotada no lombo de quem foi sempre tão explorado como o povo brasileiro.

Digo eu, que ADORO! crime.

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Me acuda, Suassuna!

      Faz tempo, estive na Escócia. Mais precisamente em Edimburgo, num outubro em que já fazia um frio glacial e a noite se apresentava às 4 da tarde. A cidade é bela e charmosa, sendo guardada do alto pelo Castelo de Edimburgo, que naturalmente visitamos. Conhecemos também outros castelos, e me ficou a impressão de que não era possível que um país com história tão rica  – e sangrenta –  pudesse se conformar com fazer parte do Reino Unido dominado pela Inglaterra. Embora saibamos que a maior parte das pessoas apenas se preocupa em nascer, crescer e morrer, sempre houve e haverá pentelhos inconformados que teimem em encontrar causas por que lutar. Recentemente, um referendo mostrou um país bastante dividido, com 53,3% dos respondentes tendo votado contra a independência e 44,7% a favor. Participaram 84,59% da população.

      Viajei tão longe a fim de tratar de um assunto muito próximo: a tendência crescente de se pronunciar nossas vogais E e O como /ê/ e /ô/. Meus ouvidos comíveis pela terra e cremáveis pelo fogo já receberam nos peitos os absurdos “êfe ême”, “vôlta às aulas” e “cômêrcio”; crianças que frequentam escolas de elite hoje exclamam que alguma coisa é “hôrrível” ou “chôcante”. Uma amiga já escutou alguém dizer que iria a uma festa “blêque tai”, e estou sabendo que os aprendizes de inglês querem pronunciar todos os Es e Os fechados: “dôlphin”, “êlêphant”, “clôsêt” – e por aí vai. Em inglês (americano, pelo menos), soam muito mais abertas que fechadas mas a eles não interessa: parece que as vogais abertas são coisa de nordestino – por extensão, coisa de pobre -, e temo que num futuro próximo teremos somente cinco sons vogais em nossa língua em vez dos sete que ainda resistem. 

      Repórteres e apresentadores de rádios e TVs locais constituem-se numa piada à parte: enquanto dizem “hôspital”, “difêrente”, “êspêrança” –  decerto porque acham mais civilizado -, muitas vezes libertam por descuido os sons que lhes são naturais mas que mantêm amordaçados, resultando em frases híbridas, de DNA irreconhecível. A propósito, lembro de uma entrevista com João Ubaldo nos idos de 1987 ou 8, que acompanhei como operadora de câmara, em que ele fez um comentário não elogioso a respeito da forma de falar do entrevistador, que era exatamente essa mistura de /és/ e /ês/, /ós/ e /ôs/. Ou seja: o fenômeno já ocorria há três décadas, e de lá para cá só tem se generalizado.

      Isso sem falar do uso dos artigos definidos antes dos nomes das pessoas: é um tal de A Maria e O João, dO Pedro e dA Léa (ou Lêa?) que me faz subir pelas paredes embora eu adore as lagartixas. Nada contra quem tem esse elemento como parte legítima de seu falar, mas em Salvador nunca foi assim. É uma mania de imitar cariocas e paulistas que seria talvez compreensível se a Bahia não contasse em seu currículo com tanta soberania, desde sempre. Um amigo comentou outro dia que somos pioneiros até em casos de assassinato de familiares, uma vez que os mais velhos se recordarão da Chacina da Graça, de 1970, quando certa noite um jovem de seus 20 anos matou pai, mãe, avó e irmão, deixando a cidade estarrecida. 

      Imagino os faladores de ês, ôs e afins que ora me leem se sentindo revoltados contra esta escrevinhadora e sua pregação de que fiquemos parados no tempo, desprezando a modernidade. Imagino-lhes a satisfação por esfregar em minhas fuças o fato de que se trata de um processo irreversível e eu que permaneça quixota, lutando contra moinhos até o fim de minha vida. E permanecerei. Desconfio mesmo de que assim também seria caso ainda tivesse 12 anos, tão contente que sempre fui por ter nascido na Cidade da Bahia, triangular e mágica. Prezo a minha fala, não vou copiar a de ninguém. Já basta o desaparecimento do primeiro alfabeto que aprendi, quando meu nome se soletrava rrê – ó – ssi – a – nê – a. Recuso a dominação, como 44,7% dos escoceses.

      E assino: ró-ã. Meu pseudônimo original, roã, começou a ser pronunciado com o O fechado e precisei tomar providências. Agora eu quero ver.

      

      

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Encontro meu Brasil

      Madame trafegava pela Octavio Mangabeira às duas e meia da tarde, sol brilhando com tamanho fulgor que nuvem alguma se atrevia a macular o azul do céu. Na altura de Patamares, o andar do automóvel começou a parecer estranho. Encostou a fim de verificar quesquecé.

      Quase que imediatamente apresentou-se um rapaz de seus 18 anos, gentilmente se dispondo a ajudá-la.  Durante suados muitos minutos, tentou com bravura remover o pneu furado. Chegou a ficar em pé na chave de roda, forçando-a com o peso do corpo, mas os parafusos danados de salitre se recusaram a mexer um centímetro que fosse. 

      Com o bom samaritano já ensopado de suor, ela viu que não tinha jeito.

  • Deixe pra lá, só chamando o guincho. Mas peraí que vou te dar alguma coisa.

      Abriu a porta e  já alcançava a bolsa no banco do carona quando o menino chegou bem perto, mostrando uma protuberância sob a camiseta. Ordenou, retumbante:

  • Passe a grana!

      Ela olhou para ele, perplexa.

  • Como é? Não entendi…
  • Passe a grana, depressa!
  • Ôxente, você tá me assaltando?!? Mas você não tava me ajudando até agora?!??
  • É assalto, sim! Me dê logo a bolsa!
  • Mas não pode ser! Cê tá maluco?!? Como é que pode ter me ajudado tanto tempo e agora tá me assaltando??!?
  • Vombora, tia!!
  • Mas você não tá vendo que não pode ser gente boa num momento e no outro virar ladrão?!?

      O garoto parecia não acreditar no papo brabo e resolveu endurecer:

  • Eu te mato, viu?
  • Mata, coisa nenhuma! Saia daqui, vá! Chispa!    

     Os olhos do moço chamejaram de ódio. Ela pensou maluca sou eu e se arrependeu de não ter logo dado tudo. Mas a bala não veio e madame entendeu que o menino não estava armado zorra nenhuma. Como se adivinhando o pensamento da coroa, ameaçou vou te enforcar! Recebeu um olhar incrédulo. Sorriu amarelo:

  • Eu tava brincando, tia! Tá vendo? É minha carteira! 

     Ela entrou no carro e não quis mais conversa:

  • Vá embora! Vá embora já, que vou chamar a polícia!

      O rapaz atravessou a avenida picado e sumiu no mundo. Madame ligou para o seguro e depois 190, que acabou chegando uma hora mais tarde, cheio de metralhadora e vontade.

 

      

      

 

      

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A clavícula selvagem

      Precisei viver mais de meio século a fim de constatar que uma imagem realmente vale mais que mil palavras. Passeando pelo Facebook, deparei-me com a propaganda de um site japonês oferecendo centenas de produtos por preços pra lá de módicos. O primeiro era um kit antirrrrrronco,  presente do Olimpo para quem tem marido – o que imediatamente me interessou.

      Ao entrar no site, começaram a se exibir produtos de grande diversidade, e sua descrição me deixou completamente encantada, apaixonada que sou pelas palavras desde sempre. Eis alguns exemplos:

  • Lona mulheres cosméticos saco de higiene (Japão e coreano estilo)
  • Criativa tesouras forma mulheres senhoras menina cabelo
  • Cool verão transparente senhoras modas óculos sol mulheres
  • Toalete que pendura o saco cosmético do caso (grande capacidade)
  • Portáteis cute perfume frascos forma mini lentes de contato
  • Qualidade de moda pc azul filme de luz plana óculos de sol para homens
  • Gato animal lindo cão emblema acrílico emblemas da roupa
  • Mulheres maquiagem sacos preto rosa cosméticos saco flor
  • Saco de flap cute senhora mini crossbody messenger bags meninas
  • Flor impressa coelho orelha mulheres headbands partido cabeça
  • Mini viagem portátil bonito cartoon forma beard contato
  • Moda colarinho preto cadeia pescoço rodada clavícula selvagem
  • Cute girls pérola rinoceronte três-dimensional coroa 
  • Óculos caso macio impermeável pano xadrez óculos de sol saco
  • 1 pc moda mulheres adoráveis menina metal folha de cabelo
  • Mulheres chapelaria ferramentas de cabelo esponja elegante 
  • Dobra-sobre o saco impermeável do curso
  • Estilo elegante moderno do vintage da forma do gato-olho
  • Bolsa de couro de comidas
  • 1 pcs coreano coelho pele bola elástica fio de cabelo anéis
  • Grande quadro claro óculos de sol desproporcionado
  • Óculos de sol vintage aviador homens polarizados mulheres
  • Fashion square sem óculos de sol mulheres designer vintage
  • 1 par de mulheres esticadas inverno luvas dedo longo braço
  • 4 peça Bolsas de couro de plutônio
  • Portátil cartoon cream rolo de viagem óculos lentes de contato

      E, finalmente, algo que carece de imagem para que seja entendido:

  • Suporte ajustável para laptop.

Para Maria Helena Meyer

 

      

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Vida de madame

       Malgrado as tristes circunstâncias, ando levando a vida que pedi aos deuses. Nunca mais experimentei a violência de ser extirpada de um sonho pelo despertador, o que sempre reputei como uma afronta a nossa alma. Durmo meu sono inteirinho, podendo durar as 10, 12 ou 14 horas sempre pares. Adoro dormir, e uma das razões deve vir dos sonhos que geralmente me visitam, de uma delícia surpreendente. Nem adianta me cutucar que um dia dormirei por toda a eternidade; não posso negá-lo mas estou ciente de que então não sonharei, portanto não terá graça.

      Tenho passado os dias em desrespeito ao relógio, fazendo tudo o que de necessário se apresente mas de uma maneira cem por cento orgânica: sem prazo, sem pressa, corrente como as águas de um rio. Só que não paro: herdei o espírito de formiga de minha mãe, sempre ocupada com alguma coisa. Até quando assisto à TV, não consigo ficar quieta e mantenho as mãos atarefadas com os pontos e laçadas do tricô.

      Invejei a vida inteira as algumas conhecidas que nunca precisaram ganhar sua grana, por serem crias de pais e/ou maridos ou por receberem pensões de uns e/ou outros. E sempre fiquei pê por umas terem o desplante de ainda se queixar da vida, parecendo uma provocação, embora eu tenha plena consciência de que, apesar de precisar continuar trabalhando mesmo depois de aposentada,  tenho conhecido privilégios desde que vim ao mundo. E isso não se escolhe nem depende de méritos: é apenas sorte.     

      Apesar de respeitar muitíssimo amigos que professam a fé espírita e acreditam que para todo sofrer e glória presentes existe uma razão anterior; ainda quando gostaria de acreditar que assim fosse, me é impossível admitir que o Universo, o Acaso, o Caos, compartilhe do senso de justiça que os humanos inventamos – e que, mesmo como seus inventores, não somos capazes de tornar isento de interesses tantos e mesquinhamente terrenos.

      Tenho espichada na parede atrás de minha cama uma gravura de nossa galáxia; uma seta minúscula aponta o lugar que habitamos, onde Bem e  Mal se fazem, em que esperneiam explorados e exploradores. E onde agora um vírus, criado ou não em laboratório mas verdadeiro representante de quem manda neste mundo, não quer saber de nada que move os que se imaginam os donos deste mundo, podendo até vir a trair seus criadores. Deseja somente se aninhar numa célula humana, reproduzir-se em seu regaço, alimentar-se, embalar-se na mesma vida de madame que está me proporcionando, chamá-la de mãe, talvez chorar e ser consolado.      

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Rara celulite

       A professora de Pilates descobriu que minhas pernas brigam entre si. A direita é preguiçosa e faz com que a esquerda dê conta de todo o trabalho que meu andar e outros movimentos exigem. O que resulta numa bichinha travada enquanto a direita tá fanfando. Entretanto, há muito eu sabia que moravam em mim dois lados desiguais, mesmo antes de Raul Seixas declarar: “Sou um caranguejo de duas bocas, uma inimiga da outra.”

      Creio que existe gente que nasce já se incomodando com as contradições que as habitam, enquanto outras nem se esforçam para acomodar o que nelas haja de incompatível, pois não as percebem como incompatíveis – e esta impossibilidade de sentir-se, de saber-se, deve ser uma felicidade absoluta, uma autêntica bênção. Para elas, a vida deve ser muito mais fácil, praticamente uma estrada à frente, sem curvas ou obstáculos, a ser trilhada com zero incômodo a não ser os que se apresentem externamente – muito menos complicados e de mais fácil solução do que aqueles que brotam de sua alma mesma, sempre inquieta, sempre perguntadora, sempre implacável. 

      Mas ainda que tanto me custe ser como sou, morreria de vergonha de pertencer ao outro lado. Embora, possivelmente, não tivesse culpa. Culpe-se o DNA com suas espirais lisérgicas combinando partes de antepassados os mais remotos com os mais recentes, desde que o mundo se entende como gente. Mais algumas gerações, talvez a próxima, e a configuração se fará num revolucionário sanguíneo destinado a manchar a reputação de todos que o carregaram no colo.

      Alguma satisfação tenho pelo fato de que minha idade idosa ainda me conserve as faculdades mentais intactas e, de alguma maneira – se bem que tímida -, eu me veja explorando mistérios que nunca me interessaram porque estava ocupada demais namorando. E se Damares imaginasse o quanto eu namorei, me despacharia já! ao Inferno via SEDEX 1000. Minhas pernas descompensadas jamais me atrapalharam em meus tantos amores, e amores tantos e quase totalmente exercitados desejo a quem é jovem hoje, só importando a urgência dos hormônios e todas as gentes comíveis que há.

      

      

      

      

      

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Não vou sofrer

    A moça sonhou que masturbava um cavalo até o clímax e com isso ele não queria mais outra vida. Dormia e acordava em frente à casa dela, no passeio; começou a incomodar os transeuntes. Especulações de por que o bicho se quedara ali irredutilvemente apareciam cada vez com mais frequência nas redes sociais, culminando com a postagem de uma suposta testemunha: ela bateu foi punheta pra ele #prontofalei.

      O mundo se dividiu entre os a favor e os contra. “O pobre do cavalo tem cascos, está impossibilitado de se autossatisfazer. Que mal existe numa pessoa lhe proporcionar o prazer sexual? Os humanos não se masturbam ou se deixam masturbar todos os dias? Vamos deixar de ser hipócritas!” 

       Outros, no entanto, acreditavam se tratar de zoofilia, portanto condenável pela moral, os bons costumes e seus princípios religiosos. Não havia problema se a mesma moral, bons costumes e princípios religiosos permitiam que a humanidade fosse formada de poucos muitos ricos e uma maioria de explorados, mesmo porque quem acreditava nisso era comunista e essa desgraça devia ter sido toda exterminada na tortura por brilhantes coronéis de quem temos saudade.      

        A moça passou a ser convidada para talk shows no exterior, se transformando assim numa celebridade internacional e assim obtendo maior respeito no Brasil, eternamente dependente do que os civilizados pensam. Sempre causando, a moça, e causando que parte da humanidade se posicionasse em um, dois ou três lados, enquanto a maioria ignorava o cavalo punhetado e/ou se mantinha indiferente talqualmente o Universo. 

       A Terra continuou rodando imperturbada. Ela masturbadora curtiu a breve fama, o cavalo ficou firme no passeio e olhos mornos na janela, Andy Warhol bateu as botas e os homens ainda se desentendem, como sempre foi e será para sempre.

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Sobejos

       Um macho que nunca foi Alfa; nem beta, talvez sequer gama. Um menino escorado em muitas ocasiões e acusado de ser o frouxo que admite ser. Cheio de fios desencapados, volta e meia provocando curtos-circuitos às vezes mortais. 

      Estas são algumas das palavras de que Edgard Navarro lança mão para falar de si mesmo. Vou logo avisando que sou fascinada por esse exemplar de ser humano desde o início dos anos 90, quando ele proferiu meia dúzia de liberdades durante um evento no Teatro do ICBA e o vi alçar voo; ninguém me contou, eu vi! Portanto, não se deve esperar de mim isenção; o lado para que penderei sempre será o da simpatia e da identidade que com ele estabeleci naquele instante, como se estivesse finalmente conhecendo em carne e osso a alma que me arrebatou a vida inteira através de todos os poetas e artistas que admiro.

      Tudo nele não é normal. Impossível bebê-lo com moderação. Em sua presença, nada se mexe, porque o furor que se desprende da figura franzina não autoriza outros movimentos.  Ao mesmo tempo, é capaz de uma leveza e bom humor raros de se testemunhar, mesmo quando aborda questões que intimidariam os maiores fodões.  

      Edgard é inexequível, mas ainda assim estou imbuída da ousadia de escrever sobre ele.  A ideia foi minha, e me sinto muito honrada por ele ter aceito. Será, sem dúvida, uma aventura sem par chegar bem perto de quem compartilha o espírito atormentado com aqueles que sempre me enfeitiçaram pela coragem de cavucar, até as profundezas, todas as experiências que nos traz a vida – “esse grande mistério e pra quê?” – conseguindo assim criar obras transcendentais, retratos 3X4 da humanidade.

      Sentamos, pela primeira vez, a fim de conversar já na intenção de um livro, numa sexta-feira, dia 22 de novembro de 2019. Havíamos marcado às três mas ele chegou adiantado e precisou me esperar acabar de fazer a omelete que era meu almoço. Comecei a ouvi-lo às duas e meia, pouco interferindo, e seguimos até as seis da tarde. Ainda sem gravar nem nada, meio sem saber do destino que ao fim nos espera, saltando de relatos recentes a outros com alguma distância, apreciando com suavidade, atenção e delícia a intimidade de dois indivíduos que não se viam desde 2016 mas que habitam as mesmas redondezas da existência. 

      Edgard tem hoje 70 anos; eu, 62. Sabemos que já demos testa com a maior parte desta  empreitada e estamos tratando de apaziguar as inquietações que resistem. Ele ainda empreende uma busca feroz pela Verdade, embora reconheça que muitas vezes ela se multiplique, como uma célula se dividindo em partes iguais. Quer que eu ouça outras pessoas e escute suas versões sobre episódios controversos que os envolveram. Não deseja a última palavra, apenas estar pacificado no dia que a morte vier. 

      Em mim, resta o propósito de fazer com que todos possam conhecer melhor essa pessoa extraordinária que tive a felicidade de encontrar, certa de que será brava inspiração para imoderados – entre os quais os que neste momento esperneiam pela primeira vez no ar.  

 

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Tarde de domingo

      Me custou e custaram vinte anos para doar as roupas de minha mãe. Dos quarenta aos sessenta: sete mil e trezentos dias até me convencer em definitivo de que ela não tornaria a vesti-las. Até então, ousei suspeitar de que alguma mágica a traria de volta – como se, ao contrário da vida transitória, a morte não fosse permanente.  Quanta arrogância oculta nesse desejo sincero! porém não me culpo: a impotência é sentimento dos mais dolorosos.

      Nossa ilusão de pensar que em tudo podemos dar jeito se estaboca bonitinho diante da inflexibilidade da morte. A morte é o minuto de silêncio que o guia pede aos visitantes no meio da Gruta da Lapa Doce, e um silêncio tão espesso se faz que impenetrável por todas as respirações, enquanto o tempo se percorre desde antes do primeiro sinal de vida se ter atrevido neste planeta, e parece fazer sentido.

      Acho engraçadas essas filosofices que às vezes me ocorrem. Hoje, deve ter sido porque fiquei ouvindo Luigi Tenco e Renato Russo enquanto cuidava de afazeres na cozinha, conhecidos por nunca ficarem prontos, isto é: nunca serem, apenas estarem, sempre inquietude. 

      Tenco era um que perguntava por que a professora lhe teria dito que todos éramos iguais e fazia com que os alunos se levantassem quando o diretor entrava na sala embora admitisse que permanecessem sentados na presença do auxiliar de limpeza. Me encanta uma alma que se mal-assombrou ao ponto de transformar perplexidade infantil em canção adulta: continuava incomodando. Por isso não me espanta que tenha se suicidado e intuo por quê, ainda que exista quem ache que foi pela canção desclassificada num festival. 

      Também Renato Russo não se sentia em casa e pelo menos em uma ocasião o declarou a familiares, se dizendo de boa com a partida dos sentidos. Teve as cinzas espalhadas por um jardim e nos deixou muitas belas flores. A vida gosta mesmo é de ser cantada de qualquer jeito; faceira, não larga o espelho da mão. Há, contudo, aqueles que nele não se reconhecem, capazes de sentir dores que para outros nem dores são. 

      É triste e não é – o verbo ser se querendo fixo e se enganando: Sou estudante, sou solteira, sou este que agora lhe rogo por ajuda, desesperado,  mas amanhã serei feliz. Se eu fosse Luigi Tenco, teria dado a esta Rosana a chance improvável mas possível de conhecê-lo; agora, aos oitenta e um anos, e lhe dizer deste amor que se conserva nos minutos das cavernas quando não há ninguém.

      

     

      

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As pestanas de Rodrigo

 Levou um bom tempo até que eu entendesse o conceito de “MINHA Página!” no Facebook. Cansei de postar mensagens dissonantes nas de amigos, sem ter a menor ideia de que não eram bem-vindas; longe de imaginar que nas Páginas das Pessoas a gente só pode concordar.

      Foi necessário um monte de indireta até que eu desconfiasse de que estava me excedendo. Só que eu nem sabia que estava me excedendo: achava que discordar era algo normal e totalmente aceitável. 

      Passei um longo período da vida sob excruciante confusão acerca das opiniões que cada um possui sobre determinado assunto, soterrada pela existência de visões tão diversas e infinitas. Hoje acredito que tal sintoma fazia parte da fobia social de que sofria à época, sendo acometida de verdadeiro terror caso ocorresse a necessidade de externar o que pensava. Acreditava que tudo o que dissesse seria entendido como idiotice e não queria ganhar a fama de imbecil. Assim, dava um jeito de sempre me manter calada e foi esse sofrimento que me inspirou a criar a personagem Rúbia do conto “A menina e o Alfabeto”, que compõe meu livro “DOR DE FACÃO & brevidades”.

      No conto, Rúbia é salva pela Poesia quando o desengonçado Maxixão a convida pra dançar. Na realidade, me arrancaram das trevas o queridíssimo cineasta Luís Buñuel e o escritor Aldous Huxley, cada um com pensamento completamente diferente a respeito da obra do Marquês de Sade: enquanto o primeiro a compreendia como ousada e libertária, o autor de “As Portas da Percepção” – ou seja, alguém que não pode ser considerado careta –  a execrava, considerando-a, no mínimo, pornográfica. Ao ver dois tamanhos gigantes sustentando impressões opostas sobre a mesma coisa, entendi que tinha todo o direito de achar o que me desse em relação ao que fosse. 

      Liberta já faz alguns anos, ontem na aula de italiano declarei em alto e bom som na língua de Pasolini  que adoro programas como Balanço Geral e Cidade Alerta, assim como sou viciada nas séries de investigação criminal do Discovery ID. Não posso fazer nada: me fascinam os aspectos diversos da alma – a bondade extrema, a maldade inimaginável, tudo que há entre uma e outra, e ainda os aspectos políticos e sociais dos programas sensacionalistas. E, se precisar citar nomes, me aninho em Stendhal, que baseou seu “O Vermelho e o Negro” assustador de milicos na notícia de um assassinato passional.

      Voltando ao Facebook e às Páginas Próprias, foi acreditando no direito de livre expressão que passei a ser persona non grata de gente com quem mantinha boas relações há várias décadas. Felizmente, existem ainda pessoas que admitem ser contrariadas e aqui torno pública minha admiração por Celso de Carvalho, entre outros e outras. Quando se crê em democracia e liberdade de expressão, não me parece fazer sentido a intolerância quanto a opiniões desarmônicas, ainda que nos traga desconforto saber que alguém com quem estabelecemos laços de afeto desde a juventude tenha se decidido pela equivocada opção de votar num bolsomerda fã da tortura. 

      Feliz ou infelizmente, nasci assim. E agora que estou mais próxima da morte do que do dia em que vim ao mundo, opto por respeitar, e muito, o tecido de que sou constituída. O interessante é que, embora tenha me custado tanto tempo e dores para aprender a fincar o pé em mim mesma, tive certa vez um aluno, Rodrigo, que aos 9 anos já respondia com toda a tranquilidade a quem o importunava sobre as belas pestanas longas:

  • Eta, você tem cílios de mulher!
  • Você acha? Que pena.
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